Medicina Por Elas: o futuro da medicina brasileira

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Se você jogar agora as palavras “medicina e a mulher”, em qualquer site de busca na internet, as palavras empoderamento, ascensão, representatividade e feminização serão encontradas com facilidade. 

Em geral, esses diversos conteúdos têm um único objetivo: incentivar mulheres a ocupar o espaço médico pouco receptivo ao público feminino

É com essa vontade de criar pertencimento que as alunas Renata Vitorino Borges (23) e Marcela Costa de Almeida Silva (21) desenvolveram o projeto “Medicina Por Elas”.

O que antes parecia ser somente a união de duas amigas da Universidade Federal de Jataí (Goiás), hoje se tornou um Instagram especializado na divulgação de informação do ramo médico e encorajamento para as mulheres na saúde. 

Mesmo o público alvo sendo estudantes de medicina e médicas já graduadas, o conteúdo tem carisma e relevância suficiente para conquistar qualquer internauta.

Recheado de tons verde, laranja e lilás pasteis, o Instagram @medicinaporelas conta com mais de 150 publicações de utilidade pública. Além de uma comunidade disposta a troca e aprendizado.

As postagens variam desde dicas profissionais e acadêmicas, memória de personalidades femininas singulares na medicina, até esclarecimento didáticos sobre raça, gênero, feminismo e saúde.

“Estudando a história da medicina, percebi que muito se falava sobre os homens”

Renata Vitorino conta que o Medicina Por Elas nasceu a partir do incômodo da própria estudante sobre a falta da representação feminina na trajetória da profissão. “Os principais livros da história da medicina não falam a respeito da mulher“, destaca a universitária.

Encontrar onde estavam as personagens femininas, que abriram as portas para Renata e Marcela hoje serem “mediciner”, resultou no projeto que atualmente alcança mais de 6 mil seguidores no Instagram.   

 As jovens reforçam que acessar informações esclarecidas, completas e didáticas sobre a contribuição da mulher na medicina não é uma tarefa fácil.

Segundo a pesquisadora Teresa Ortiz-Gómez, da Universidade de Granada, Espanha, a preocupação acadêmica em entender a participação feminina na profissão médica surgiu, pela primeira vez, nos anos 1970. Ou seja, somente 51 anos atrás.

 “Nosso objetivo é achar esses conteúdos e divulgá-los de maneira didática e completa. Queremos agregar conhecimento e inspirar outras meninas que, assim como eu, tiveram dificuldade de reconhecer o espaço médico como meu, devido à falta de representação”, conta Renata.

Em relação às dificuldades iniciais do projeto, a estudante Marcela Costa destaca o desconhecimento técnico, no ramo da produção de conteúdo, como o primeiro desafio.

Por outro lado, de bom humor, a jovem admite que juntas, ela e Renata sempre dão um jeito em seguir com as postagens, sem perder o profissionalismo do Instagram.

Incontáveis feedbacks positivos

As futuras médicas não conseguiram apontar um único caso que ilustrasse os efeitos positivos do projeto Medicina Por Elas nas internautas. Segundo as gestoras, o Instagram recebe, diariamente, diversos comentários e direct de seguidoras inspiradas pelo projeto.

Sabemos que ajudamos várias alunas na escolha do Sisu, sobre qual instituição optar, até mesmo qual especialização médica seguir. Existem algumas seguidoras que denunciam situações de machismo, marcando a gente em publicações no Instagram. Ficamos muito emocionadas quando esse tipo de movimentação acontece”, complementou Marcela. 

Tanto Marcela como Renata admitem que são os mais simples feedbacks positivos que as estimulam a manter o @medicinaporelas atualizado. “É inspirador para nós duas perceber que fomos capazes de ajudar outras mulheres”, contou Renata sorrindo.

Parceria com a Maconequi e a MD Spirit

O próprio apoio oferecido pela Maconequi e pela MD Spirit são interpretados como ganhos pelas alunas. Em Abril de 2021, o Medicina por Elas e a MD realizaram um concurso cultural, no Instagram do projeto.

As participantes concorreram o kit MD WOMAN. Venceria a seguidora que respondesse, de maneira mais criativa, a pergunta “Como você se vê nos próximos anos?”. Ao todo foram enviados mais de 100 comentários. 

Com o apoio da MD Spirit e da Maconequi, entendemos que nossa pauta alcançou espaço e instituições influentes no ramo da saúde. Isso é muito importante para nós, porque nem sempre as empresas estão dispostas a acolher as pautas representadas pelo Medicina Por Elas”, comenta Marcela Costa.  

A medicina como lugar de escuta 

As alunas admitem que desenvolver um projeto focado na saúde, que seja realmente inclusivo e representativo, faz delas não somente profissionais, mas também pessoas melhores.

Segundo Renata, a medicina é essencialmente uma ciência humana. No entanto, pela formação acadêmica ser heteronormativa, o profissional acaba não aprendendo como acolher, de maneira eficiente, alguns pacientes.

Criar o Medicina Por Elas, projeto que se preocupa até em desenvolver uma logotipo inclusivo, tornou as duas estudantes mais sensíveis a escuta e ao atendimento humanizado

O atendimento ginecológico das pessoas LGBT é um exemplo de falta de acolhimento. Ou o médico foca 100% na sexualidade do paciente, ou ignora totalmente a existência da comunidade. É esse tipo de comportamento médico que justifica os dados de que mulheres lésbicas morrem mais de câncer de mama, que mulheres héteros”, contou Renata Vitorino.

Respeitar o nome social do paciente, preparar a equipe médica para receber de maneira humanizada a pessoa LGBTQIA+, desde a recepção até a entrada no consultório. Além de contratar profissionais da saúde, que sejam participantes da comunidade, são algumas soluções apontadas pelas universitárias.

A escuta é importante não somente para deixar aquele paciente mais confortável no ambiente hospitalar, até para você fazer o registro clínico dos sintomas é preciso ser um ouvinte. Tem gente que procura o médico somente para ser ouvido”, acrescenta Marcela.   

Minha formação seria diferente se já existisse uma medicina feminista

As possibilidades de uma graduação mais representativa para o público feminino, não poderia ficar de fora da conversa. Como desafio na formação, as alunas acentuaram a dificuldade de ser mulher e assumir sua função profissional no setor cirúrgico e hospitalar.

As mulheres que trabalham no setor cirúrgico, na intenção de manter sua carga de respeito e profissionalismo, podem acabar se masculinizando. As médicas não são compreendidas quando demonstram sensibilidade, comoção ou cometem um erro. Tudo isso é associado a sua condição de ser mulher. Até a relação com a menstruação é afetada”, desabafou Renata.

As estudantes contam que, quando uma menina diz que quer seguir carreira cirúrgica, elas sempre são questionadas se essa é a melhor decisão. Fatores como filhos, cargas horárias longas e intensas, força corporal são colocadas em questão. 

“Lugar de mulher é onde ela quiser”

A maneira encontrada pela Medicina Por Elas, de popularizar especialidades médicas, entre o público feminino, foi produzir uma série de Lives. Ao todo foram mais de 6 entrevistas que contaram a experiência de diversas médicas.

 Neurocirurgia, cirurgia geral e do aparelho digestivo, ortopedia e cirurgia de mão, medicina intensiva, genética médica são alguns dos temas já abordados. Para conferir as transmissões é só acompanhar os posts salvos do projeto

Renata e Marcela esperam que daqui a 10-15 anos, algumas mudanças aconteçam na formação das futuras “mediciners”. A reformulação da grade curricular foi o primeiro tópico apontado.

 As jovens alertam para a necessidade da adesão a temas feminista, saúde LGBTQIA+, indígena e negra na formação acadêmica.

 “O conhecimento sobre essas pautas de minoria, futuramente, serão exigências no currículo do aluno. Isso precisa ser ampliado nos próximos anos, tanto de maneira teórica, como prática”, conta Marcela.

Renata, por sua vez, destaca a situação das especialidades médicas, que ainda têm resistência a personalidades femininas.

Às vezes temos que nos provar 2 ou 3 vezes a mais que um homem, para ter o mínimo de reconhecimento. Eu espero que isso mude, na verdade acho que já está mudando”, comentou a jovem.

Em quem Renata e Marcela se inspiram?

Sem pensar duas vezes, o nome da psiquiatra Nise da Silveira, e da médica pesquisadora Ludhmila Hajjar, foram os escolhidos pela aluna Marcela Costa. “Eu fico muito animada, porque a Ludhmilla é de Goiânia igual a gente”, comentou rindo. “Eu brinco dizendo que sou ‘tiete’ de cientista“, completou Marcela.

Já Renata selecionou a primeira médica cirurgiã da USP, Angelita Habr-Gama, e a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns. “Todas as duas são muito inspiradoras, da vontade de ter conhecido“, confessa Renata.

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